Ao me levantar pela manhã, cumpro uma espécie de ritual: vou direto ao quintal de casa buscar o jornal, o folheio rapidamente, leio a primeira página e deixo para depois do café para lê-lo na íntegra. Na verdade, o leio durante todo o dia um pouco a cada momento de folga.

Hoje, não sei porque cargas d’água, fiquei imaginando se alguns famosos “líderes” do movimento umbandista atual fazem coisas tão singelas como ir, eles mesmos, ao quintal de casa pegar o seu jornal. E, caso o façam, se não ficam esperando uma multidão de pessoas em frente à sua residência entoando mantras em seu louvor, algo do tipo “meu pai-de-santo é boooommmmm, meu pai-de-santo é boooommmmm“, à semelhança do “OM” tão usado no meio esotérico.

Fico imaginando isto porque diariamente lemos (em listas e comunidades) e ouvimos (em programas de rádio e televisão, pronunciamentos, video-aulas, revistas, sites, etc…) “mantras” assemelhados à este, então não seria de se admirar que houvesse um ritual diário onde discípulos, simpatizantes e puxa-sacos em geral fossem lamber as sandálias do “mestre” e entoar cânticos ao seu louvor para que toda a vizinhança tenha conhecimento de que estão morando ao lado de um semi-deus.

Uma das muitas coisas que chama a atenção, é o excesso de virtudes auto-proclamadas por alguns “mestres” (não todos…) e disseminadas por ai pelos seus discípulos e puxa-sacos. Os cidadãos são tão puros, tão abnegados, tão trabalhadores, sensíveis aos problemas mundiais (de modo geral) e dos umbandistas (específicamente), que já me peguei a pensar se eles, como todos os seres vivos, têm um tempo, nesta saga heróica e altruísta, para satisfazer suas necessidades fisiológicas.

Claro que estou falando da eliminação de resíduos (se é que você me entende), porque para práticas tântricas, onde as mais belas discípulas são escolhidas para receber o “àsé” diretamente da “fonte” de alguns destes “mestres”, o tempo não deve faltar, com certeza.

Esta coisa de ser “alto dignatário” d’ Aruanda tem muitas vantagens.

Os sujeitos têm comunicação direta com os Orixás, escrevem centenas de livros, abrem terreiros e filiais em todos os lugares do mundo, contam com uma “tropa de choque” para calar os opositores, uma outra para divulgar seu virtuosismo, se dão bem com o elemento feminino, têm grana, fama e tudo que nós, reles mortais, em geral, conseguimos trabalhando arduamente.

Em se falando de virtuosismo, o colunista Luiz Felipe Pondé, do jornal “Folha de São Paulo“, definiu muito bem a questão:

Uma ressaca de álcool ou uma ressaca moral cura qualquer vaidade. Achar-se virtuoso é a marca do bom canalha.”

E como temos “virtuosos” na Umbanda, não é mesmo?

Principalmente em época de eleições, há um verdadeiro “estouro” de hordas inteiras de “guerreiros” prontos para resolver os problemas da comunidade umbandistas e serem nossos representantes junto aos Poderes constituídos. O ativismo é tão forte, a “liderança” tão evidente, que só faltam sair por ai cantando “caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais braços dados ou não…”.

E neste imenso “filme B” em que se transformou ao movimento umbandista atual, os papéis de “mocinho” e de “bandido” mudam de acordo com o diretor, já que ora um se veste de branco e o outro de negro, invertendo as posições conforme a capacidade que seus auxiliares tenham de manter acesa a chama da idolatria à personalidade dos seus “mestres”.

Amanhã, como todos os dias, irei pegar meu jornal e continuarei imaginando alguns “mestres” fazendo o mesmo.

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