A Umbanda é diversa.

Isto todo mundo já está careca de saber.

Mas diversidade não quer dizer que tenhamos de aceitar tudo como “Umbanda”, que devemos fazer matanças em nossos Terreiros ou “virar” no Catimbó somente porque aquele sacerdote, que é nosso amigo, visitará nossa Casa e assim faz em seus rituais. Se ele não se isenta de fazer seus sacrifícios quando o visito, porque deve ser o contrário?

Em minha Casa não se faz matanças, discordo da prática, não acredito ser espiritualmente saudável e, mais do que isto, do meu ponto de vista, julgo desnecessário. Esta é a forma como vejo a questão, não necessariamente é a mais certa ou errado. Só é diferente.

Não usamos cartolas, smokings, ternos, cocares, arco-e-flecha, capas vermelhas e pretas, tridentes e outros “acessórios” para caracterizar nenhuma Entidade. Assim como no caso da matança, julgamos isto completamente desnecessário.

A Criança não será mais alegre e pura se usar uma vestidinho cor-de-rosa ou calças curtas; o Caboclo não será mais forte caso não use imensos cocares que se arrastam, muitas vezes, aos pés do médium ou toca o teto devido ao tamanho das penas; o Exu não será mais “Legbara” se estiver usando um imenso tridente.

Apesar de adotarmos celebrações e até mesmo acreditarmos que não há mal que as Entidades manifestantes usem de certos elementos materiais, inclusive fumo, bebidas e, eventualmente, comida (frutas, farofa, etc), não acreditamos que isto deva ser uma constante, sendo que tais coisas são reservadas para ocasiões e trabalhos especiais.

Não acreditamos estar de posse de nenhuma verdade absoluta, longe disto. Mas primamos por seguir de forma coerente os ensinamentos deixados por Matta e Silva e que absorvemos durante a nossa trajetória iniciática. Não concordamos com algumas práticas, doutrinas e conceitos em outros ritos, mas isto não quer dizer que achamos aquela Umbanda pior do que a que praticamos.

Por outro lado, também não concordamos com a postura hipócrita, verdadeiro preconceito às avessas, que vem sendo propagada no meio umbandista. No que pese que a maioria dos adeptos da religião mantêm uma raiz africanista em seus ritos, nós que acreditamos e praticamos de forma diversa à esta não podemos condená-los, mas também não podemos ser condenados.

A tal “tolerância” deve ser via de mão dupla, caso contrário passa a ser apenas mais um discurso do tipo “faz o que eu mando e não olhe o que faço” e “minha Umbanda é melhor porque tenho o àsé africano puro”.

A lógica é simples: quem quer respeito deve, antes de tudo, respeitar.

O que temos vistos hoje em dia é um discurso hipócrita de que tudo é “Umbanda”, que todos devem ser respeitados, mas na prática os ataques continuam, não somente daqueles que, contraditoriamente, pregam respeito, tolerância, diversidade, convergência, mas não param de atacar o trabalho de seus desafetos. Se querem ser tolerante, devem ser plenos, não podendo deixar arestas ou exceções.

O respeito, diferente do que muitos querem fazer crer, não está atrelado à concordância ou a prática, mesmo que eventual, daquilo que não acreditamos ser o correto em termos de ritualismo ou mediunidade. Esta sim relacionado ao reconhecimento de que cada um é livre para adoras à Deus (ou à deuses) da forma que bem entender e achar correto, não havendo supremacia de um sobre o outro.

Mas o que temos visto no movimento umbandista atual não é muito diferente da forma que os evangélicos agem quando atacam a religião alheia e ao receberem o revide acusam seus agressores de intolerante e preconceituosos. Os umbandistas ligados à raizes africanistas clamam pelo seu direito à matança, roupas vistosas, etc, mas não perdem a chance de atacar quem assim não procede.

Somos umbandistas e acreditamos que todos os demais são nossos Irmãos em Oxalá.

Mas isto não quer dizer que temos de aceitar tudo e não podemos criticar ou debater de forma saudável, dentro do campo das idéias. Infelizmente, dentro do movimento umbandista o principal “argumento” que se usa é o ataque pessoal, sendo raros os debates que se mantêm no campo exclusivo das idéias. A regra geral no meio é “se não consigo refutar o argumento, então ataco o argumentador“. Isto é patético e lamentável.

Que todos os Povos e Ritos de Umbanda se unam pelo bem da religião, possibilitando que a Senhora da Luz Velada passe a ser a Senhora da Luz Brilhante.

Mas que cada um mantenha sua própria identidade.

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Ilustração: Connie Larsen

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