Na contramão das tendências teológicas dentro das religiões de matriz africana, que vem fazendo uma releitura do sincretismo religioso e separando os Orixás dos “santos” católicos, Rivas Neto vem incentivando tal prática. No seu manifesto sobre magia oracular, Arapiaga insiste que a diversidade e o respeito às diferenças deve prevalecer, inclusive mantendoo sincretismo com os santos católicos.

Em nosso artigo Sincretismo Religioso: Faz Sentido?, que foi até mesmo plagiado pela Editora Escala através da “Revista Espiritual de Umbanda“, já demonstramos o absurdo de se manter tal prática e os motivos que a tornam incompatível com os cultos de matriz africana.

Incentivar o sincretismo em nome de um “respeito” e “diversidade” é simplesmente colaborar que a massa umbandista continue atrelada, submissa a ditames da Igreja Católica, esquecendo de seus Orixás, visto que eles não são mais Xangô, Ogum, Oxossi, Yemanjá, mas sim São Jerônimo, São Jorge, São Sebastião e Nossa Senhora dos Navegantes.

O sincretismo, na verdade, continua dizendo, como fizeram os catequistas, que Orixás, Voduns, Inkices, etc, são “coisa de preto”, “cultura inferior”, arremedos dos santos católicos e da tradição judaico-cristã. É dominação da cultura européia, do branco, do “senhor do engenho”, sobre o “escravo” negro, a cultura d’África, que alguns insistem em fomentar não com objetivos de tolerância, mas sim de amelhar o maior número possível de consciências ao seu favor.

Os Orixás já eram cultuados n’Africa mil anos antes de Cristo.

Xangô já era o Senhor dos Raios e dos Trovões, Senhor do Karma, da Balança e do Destino, muito antes de São Jerônimo nascer em Strídon, em 347 d.C.

Ogum já era o Senhor das Batalhas, do Ferro e dos Caminhos, muito antes do lendário São Jorge “nascer” na Capadócia. Oxossi já reinava absoluto nas Florestas e Matas, quando São Sebastião é martirizado em 286 d.C.

Yansã já era a “mulher-búfalo” e Santa Bárbara ainda não havia nascido, assim como Yemanjá já dominava as águas (nas terras africanas era um Orixá de água doce e não do mar) enquanto Maria, mãe de Jesus, sugava leite dos seios de Ana.

Finalmente, Exu já era o Senhor do Bará, era (é) Asiwaju¹, antes de inventarem a ridícula e risível figura do diabo cristão e assim o definí-lo.

Em termos de Nação, a coisa muda de figura.

Não existe sincretismo entre, por exemplo, Oxossi e Azaká/Mutakalambô/Congobira, visto que são o mesmo Orixá/Vodun/Nkisi com o nome no dialeto de sua Nação, assim como Ossaim é Águê/Katendê, Xangô é Badé-Quevioso/Nzazi, Oxalá é Mavu-Lissa/Lemba e assim por diante.

A diferença entre relacionar, identificar um Orixá (Kêto) com a sua manifestação como Vodun (Jeje) e Nkisi (Angola), e sincretizar com santos católicos é gritante. Orixás/Voduns/Mikisi têm a mesma natureza e origem, já santos católicos assim foram feitos por um decreto humano, por um sujeito que senta-se em um trono e se diz o único representante de Deus na terra.

É o mesmo que Rivas Neto morrer e seus discípulos decretarem que o mesmo, à exemplo do que ocorre nas lendas africanas sobre os Orixás onde homens e mulheres, depois de certos acontecimentos, se transformaram em seres divino, dizer que com ele assim sucedeu (o que não duvido nada de acontecer) e passar então a termos um “orixá yamunishida“. Não faz, absolutamente, nenhum sentido.

Venho defendendo faz muito tempo a necessidade dos Cultos de matriz africana se desatrelarem do servilismo à religião católica. Não é possível que continuemos apegados a um preconceito cultural que foi implantado na época da escravidão e que se mantem, mesmo que de forma inconsciente, em nosso Terreiros.

A insistência na absurda prática do sincretismo, demonstra que muita gente entrou para os Cultos de origem africana mas estes não entraram nas pessoas. É inconcebível para alguns, louvar os Orixás negros na gíra de sexta-feira para no domingo estarem comendo a hóstia e comungando na Igreja católica, portanto mais fácil, para que a sua dupla filiação religiosa faça sentido (o que para mim não faz de forma alguma), que no seu Terreiro se cultue os mesmos santos de lá.

Para finalizar, cito uma frase de Mãe Stella de Oxóssi, Yalorixá do Ilê Àsé Opô Afonjá, durante a II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás:

“Já passamos do tempo de ter que esconder nossa religião. Nossos antepassados, para não serem massacrados foram levados ao sincretismo. É isto que queremos parar de fazer.”

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Referências:

¹ o que vai à frente de todos

Foto: Portal Educacional do Estado do Paraná

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