Na última quarta-feira (11/02) o programa “Sbt Repórter” mostrou a história e o trabalho do médium João Teixeira de Farias, o “João de Deus“, que mantém a Casa Dom Inácio de Loyola na cidade de Abadiânia, Estado de Goiás.

O médium é conhecido internacionalmente pelas supostas curas que faz, ao melhor estilo “Dr. Fritz“, com direito a cortes sem sangue e dor usando facas e bisturis não esterlizados, tesouras cirúrgicas enormes introduzidas nas narinas sem nenhuma cerimônia, raspagens de côrnea com facas de cozinha, dentre outros fenômenos comuns nas assim chamadas “cirurgias espirituais”.

O número de pessoas que procuram o médium é impressionante. Pessoas de todas as nacionalidades, inclusive de paises como a Romênia onde não nenhuma tradição espírita-espiritualista.

Gente da Suécia, Itália, Reino Unido, Alemanha… enfim, pessoas dos quatro cantos do mundo buscam o alívio, senão a cura total, para seus problemas de saúde junto ao médium conhecido como “João de Deus” (ou na versão internacional, “John of God“).

Nunca estive em Abadiânia, apesar de reiterados convites de pessoas de minha relação que há anos peregrinam por lá. Os relatos que me fizeram, assim como as reportagens que já li e assisti sobre o lugar me desanimam: uma longa viagem de ônibus, imensas filas, horas sentado, um regime disciplinar extremamente rígido.

Aliás, este é o aspecto dos trabalhos de “João de Deus” que quero desenvolver neste texto.

Assistindo a reportagem de ontem à noite, algumas coisas me incomodaram muito em “João de Abadiânia”, como também é conhecido o médium, assim como nas entidades que supostamente o mesmo incorpora.

A primeira coisa que reparei é a GROSSERIA com que ele trata as pessoas, em especial aquelas que demonstrem o mínimo de ceticismo sobre tudo que acontece ali. Tanto o médium, quanto a entidade que se manifesta, um tal Dr. Augusto de Almeida, que teria sido militar em sua última encarnação, age de forma grosseira.

A repórter e a equipe do “Sbt Repórter” foram tratadas com desdém.

A entidade chega ao ponto de deixá-la segurando uma bandeja com instrumental cirúrgico por um bom tempo, diante de centenas de pessoas, depois de perder completamente a paciência e a compostura com a mesma por ela ter perguntado se um italiano, que se submeteria a uma operação, estava consciente.

Diante disto, a entidade simplesmente, após um rompante de impaciência, simplesmente dá às costas para a ela e o tal paciente e vai-se embora, retornando minutos depois, pedindo “autorização” da jornalista para operar.

Esta não seria a primeira e nem a última vez que médium/entidade tratariam a equipe de televisão de forma desrespeitosa.

Outra coisa que chamou a atenção é a forma que “João de Deus” é tratado e reverenciado. Ele se senta em uma cadeira de madeira, de espaldar alto, que lembra muito um trono. As pessoas que eram atendidas ajoelham-se diante dele e, exceto que tenham algum problema que as impossibilitem de fazê-lo, permancecem naquela posição até o final da consulta.

Para as chamadas “cirurgias invisíveis”, onde a mera presença do médium é o suficiente para operar a cura, “João de Deus” caminha de forma altiva por entre as pessoas sentadas em diferentes cômodos daquela Casa espírita. Eventualmente toca a cabeça de um e outro, e sai a passos contidos, lembrando muito a forma com que os santos são representados em filmes.

No entanto, tal culto à personalidade e esta “santificação” do médium é comum em todas os lugares, em especial aqueles que se tornam famosos devido ao trabalho de seu dirigente.

O médium, apesar de se dizer mero “instrumento de Deus”, em geral demonstra arrogância, altivez e um orgulho exarcerbado (mal dos “famosos” espíritas e umbandistas, de modo geral. Vide Rivas Neto, Robson Pinheiro, dentre outros…). Não aceitam nenhum tipo de contestação ou menor sinal de dúvida ou ceticismo diante de seus poderes, exigindo, não raramente, que as pessoas fiquem em posição inferior à eles, em geral ajoelhadas.

Não irei contestar a validade do trabalho e o sucesso das operações espirituais realizadas por “João de Abadiânia”, visto que existem centenas de relatos de pessoas que se dizem curadas de alguma moléstica grave após tratamentos na Casa Dom Inácio de Loyola.

Não vou taxá-lo de mistificador ou de estar se locupletando da fé alheia, no que pese o fato dele ter saido de um vida modesta, simples, como alfaiate e minerador e hoje ser um dos maiores fazendeiros do Estado de Goías.

Não existem elementos factíveis que comprovem que seu patrimônio veio da exploração financeira da Casa Dom Inácio de Loyola, coisa, aliás, que seria muito comum e absolutamente aceitável em paises da Europa e nos EUA, onde, em alguns lugares, é até mesmo obrigatória, por entender-se que há uma prestação de serviço, a cobrança de consultas espirituais com sensitivos e congêneres.

O que questiono é a falta de trato com as pessoas, o modo grosseiro com que algumas (muitas) são tratadas por alguém que se diz “instrumento” de Deus. Como sempre digo, a caridade não pode ser feita pelas metades e, com certeza, tratar com carinho, respeito e educação as pessoas que ali ocorrem e que muitas vezes não entendem bem tudo aquilo que está acontecendo, é o mínimo que se espera de uma casa de caridade, seja ela espírita ou umbandista.

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Foto (divulgação): www.johnofgodhealing.com/

Site oficial da Casa de Dom Inácio de Loyola: http://www.joaodedeus.com.br/

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