Não há como ter uma religião onde todos somos perdoados de nossos pecados, de nossas falhas, sem a figura de um “bode expiatório”, um tentador, um opositor. Na verdade, por mais errado que esteja, o ser humano tem a capacidade, até mesmo por uma questão de sobrevivência, de minimizar seus atos e até mesmo tentar justificá-los.

Para tanto, nada melhor do que acreditarmos que estamos sobre a influência constante de forças demoníacas (no caso de espíritas, umbandistas e espiritualistas em geral, dos obsessores). Assim transferimos a nossa responsabilidade para um ente sobrenatural e está tudo resolvido com a nossa consciência.

Acredito que já tenha exposto aqui a minha condição de ex-evangélico. Sou oriundo de uma família areligiosa, que converteu-se nos anos de 1980 ao protestantismo, sendo eu levado nesta onda.

Como não faço nada pelas metades, cheguei a fazer o seminário de teologia e por muito tempo fui um daqueles “crentes” fevorosos, que não sabia falar sobre nenhum outro assunto exceto “Bíblia”, “Jesus”, “Igreja”, “teologia”. Aliás, “fervoroso” é mero eufemismo para “chato de galochas”, devo confessar.

Portanto, conheço os bastidores das Igrejas evangélicas, sei como toda a “mágica” se desenrola, em especial os motivos de ouvirmos os pastores, em especial os de igrejas pentecostais, falarem mais do diabo do que de Deus.

A idéia é simples: convencer o fiel que tudo que está acontecendo em sua vida (doenças, desemprego, conflitos familiares, etc) são obra do demônio, do diabo, satanás, coxo, coisa-ruim, capiroto e, finalmente, do “exu”.

Então, o pastor se coloca com uma espécie de “caça-fantasmas”, convence o fiel que está embuido de uma autoridade espiritual incontestável, que o próprio Deus está ao lado dele, pronto para fazer milagres e que está pronto para começar a “agir” na vida do crente. Obviamente, o necessitado tem de dar prova da sua fé, e para isto precisa desembolsar uma certa quantia em dinheiro na forma de dízimo, ofertas e “desafios” à Deus.

Sinceramente, não há como entender os motivos que levam a Deus necessitar de dinheiro. O Senhor do Universo, o Deus Todo-Poderoso, Aquele que não teve início e não terá fim, precisa de dinheiro… muito dinheiro… para poder fazer algo por alguém.

Se eu fosse levar em conta o que dizem os pastores com o intuito de arrecadar dinheiro para Deus, chegaria a conclusão que Ele não é uma divindade e sim um banqueiro de Wall Street.

A insistência em pedir dinheiro, inclusive com falácias do tipo “quem não dá o dízimo está roubando à Deus“. “quem não faz a sua oferta de amor, não tem fé” e, a melhor delas, “você deve dar o seu tudo para provar a sua fé“, chegam a ser extorsivas, intimidatórias, levando ao incauto fiel, a entregar, como já presenciei, todas as economias, e até mesmo a passagem de volta para casa, valores para pagar água, luz e fazer a despesa do mês, como “oferta” à Igreja.

Algumas Igrejas inovaram tanto no dízimo, nas ofertas e “desafios”, que agora parcelam em até três vezes no cartão de crédito tais “obrigações” de seus fiéis. É o dinheiro de plástico chegando ao “Paraíso” e facilitando a compra de um belo triplex com vista para a mansão de Jesus.

É claro que por detrás disto tudo está a ameaça de que o diabo irá agir (ou continuará agindo) em sua vida, caso a “casa do tesouro do Senhor” não seja abastecida e os pastores, em sua maioria, possam andar de carro importado, ter jatos e lanchas possantes à disposição, assim como usufruir de concessões públicas de rádio e televisão para propagar sua idéias e, claro, atacar outras religiões, em especial as de matriz africana.

Não é novidade que a Igreja Universal do Reino de Deus já foi várias vezes condenada por usar seus veículos de comunicação para atacar a Umbanda e o Candomblé, assim como é de conhecimento de todos que os ataques, mesmo que de forma mais sutil, continuem em seus jornais, rádios e canais de televisão.

E, por qual motivo, mesmo já sendo condenada alguma vezes, incluso com direito de resposta por parte de ONG’s que combatem o preconceito racial e religioso, a Igreja Universal continua a atacar?

A resposta é simples: é lucrativo.

Mesmo que vez ou outra seja obrigada a amargar derrotas judiciais e gastar algum dinheiro com indenizações e/ou cessão de espaço em sua programação, o retorno financeiro, representado pelas ofertas de mais e mais adeptos que acreditam realmente que o diabo, atuando através de “magia negra”, “exus” e “macumbas” em geral, está complicando suas vidas é maior do que os gastos eventualmente feitos para se defender na Justiça e, claro, bancar as condenações.

Questão de mercado: o montante que entra é bem superior ao que, eventualmente, sai. Portanto é considerado por eles como investimento, não prejuízo.

Dentro do imaginário popular brasileiro, o que conhecem como magia são as práticas da Umbanda e do Candomblé, assim como de outras religiões de matrizes africanas e ameríndias. Apesar de haver religiões assim chamadas “pagãs” de origem européia, como a Wicca e a bruxaria tradicional, elas não são mencionadas porque o “povão” desconhece estas tradições e portanto não são capazes de se atemorizar com suas práticas.

Para o brasileiro, “magia” é farofa com dendê, charuto, vela vermelha e galinha preta na encruzilhada. Nada de caldeirões borbulhantes ou poções elaboradas.

Outro motivo que leva os neopentecostais a mirar nas religiões de matriz africana, é a íntima ligação com o cristianismo devido as influências católicas e o famigerado sincretismo. Nada mais cômodo do que ter uma figura como Exu, sincretizado com o demônio judaico-cristão e, pior, que tem esta personalidade demoníaca corraborada pela maioria dos adeptos da Umbanda, que fazem questão de usar imagens com chifres, tridentes, rabo e pés de bode em suas Casas de culto, sem falar na idiotice de usar nomes de demônios da kaballa judaica para referir-se à eles.

Com isto, a “fórmula mágica” está completa: pegue um povo sofrido, religioso e místico por natureza, em um país com imensas desigualdades sociais, convença-o que todas as mazelas de suas vidas são culpa de um tal diabo, ensine que Deus, apesar de Todo-Poderoso, necessita de dinheiro, eleja uma religião com elementos magísticos e espirituais onde se cultua uma Entidade (Exu) que muitos dos próprios adeptos insistem em dizer que é o diabo, e temos uma igreja neopentecostal.

Infelizmente, muitos do que se dizem umbandistas continuam dando munição para os detratores da nossa religião. São os famigerados sacrifícios com dezenas de animais diversos, as capas pretas-e-vermelhas, os tridentes, as imagens que representam Exu tal e qual o mitológico diabo judaico-cristão. São as cantigas que exortam “Lúcifer” (por sinal, um “demônio” que não existe…), “Satanás”, pontos e “rainhas” firmados no inferno.

Acredito que seja de bom tom que da próxima vez em que ficar indignado com qualquer ataque à Umbanda e as demais religiões de matriz africana, quando ouvir a acusação que Exu é o diabo, o “braço direito de satã”, e sentir-se ofendido com isto, medite o quanto você mesmo contribui para tanto.
Quem sabe nas práticas da sua Casa, nas imagens dentro da sua tronqueira e nos conceitos errôneos que propaga, principalmente sobre Exu, estão as bases das calúnias e difamações contra a religião que diz professar?

Pense nisto.

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