Não faz muito tempo, em meio a uma calorosa discussão sobre sacrifícios nos rituais de Umbanda, deparei com argumentos favoráveis, no mínimo, falaciosos.

O missivista evocava a prática pelos povos vermelhos, em especial os Incas, Maias e Astecas, civilizações, ainda de acordo com o mesmo, espiritual, moral, intelectual e socialmente evoluídas, onde era comum e aceitável os sacrifícios não somente de animais, mas também de seres humanos em honra aos seus deuses.

De acordo com este “brilhante” raciocínio, portanto, se as civilizações pré-colombianas, legítimos representantes da gloriosa raça vermelha, não se importavam com a sangueana, assim como os povos negros e, por extensão, os arianos também sacrificavam, nada mais natural e correto que nós, umbandistas, assim também procedermos.

Para completar o dantesco quadro, aparece um “mestre” e pergunta ao seu interlocutor (contrário a matança ritual) se o mesmo comia “alface e cenoura” nas ceias de final de ano. É o mais furado e falacioso argumento sendo usado por quem se diz “professor” de uma faculdade. Se o “professor” tem este tipo de raciocínio, imagine o tipo de alunos que estão sendo formados por lá.

Mas, de toda forma, é interessante esta menção às civilizações pré-colombianas.

Eram muito evoluidos mas, mesmo com os sacrifícios humanos aos seus deuses, foram extintos da face da Terra, capitularam frente ao inimigo espanhol. Antes disto, disputavam cada pedaço de terra, cada fonte d’água, através de verdadeiras guerras civis onde velhos, mulheres e crianças eram dizimados sem a menor cerimônia, a mínima piedade.

Lembro-me de ter assistido um documentário sobre os Maias, salvo engano, onde havia um jogo semelhante ao voley, onde o time derrotado tinha seus integrantes mortos e suas cabeças usadas como bola pelos vencedores. Realmente, um exemplo de “civilidade”…

O que não consigo entender, certamente por ter estudado ciências da computação ao invés de teologia umbandista, é o motivo pelo qual todos os povos que usavam de sacrifícios humanos e animais, de uma forma ou de outra, em menor ou maior grau, terem amargado escravidão, extinção de suas culturas, dominação estrangeira e, como no caso de muitos ritos pré-cristãos, simplesmente desaparecido.

Tudo bem… este meu questionamento pode soar falacioso, mas há de se esperar que em sendo a matança de animais algo benéfico, sagrado, santo, que atrai Entidades da mais alta envergadura e hierarquia espiritual, que o àsé dos Orixás (ou seja lá qual for a divindade à quem são oferecidos) se fortalece com o sangue, com o sofrimento do sacrificado, haveria de proteger cada vez mais seus adeptos, fortalecê-los nas batalhas, não é mesmo?

Estranhamente, em direção contrária, vemos os povos pré-colombianos dizimados, os negros africanos, assim como os hebreus, escravizados, dentre outras misérias que abateram tais povos.

Obviamente, não estou dizendo que tudo isto se deu somente, e tão somente, pelas práticas de sacrifícios. Claro que todos os fatos históricos que citam são fruto de uma combinação enorme de eventos e fatores, isto não discuto. O que desejo destacar, no entanto, é o fato de que na história destes povos nunca houve uma época de paz, de prosperidade duradoura, mesmo sendo adeptos da “sagrada” prática dos sacrifícios.

A fraca argumentação de que matamos animais para nos alimentarmos, portanto seria hipocrisia condenarmos a matança ritual, não convence. Como já disse anteriormente, seres humanos necessitam de proteína animal para a sua sobrevivência, mesmo assim nem todos. Não é novidade que existem pessoas radicalmente vegetarianas, que não se alimentam de absolutamente nada de origem animal e têm uma vida extremamente saudável.

Sinceramente, não acredito em um Ser Superior à mim que carregue as mesmas necessidades e mazelas que eu. Não creio em Orixás coléricos, caprichosos, ciumentos, imperfeitos. Sendo eles os grandes reguladores das forças da natureza, os mantenedores da vida, não há como acreditar que necessitam da morte de suas criaturas para que possam fazer seu trabalho.

Continuo fazendo coro com o saudoso Aluwô Agenor Miranda:

A força do candomblé [e da Umbanda] está no sangue verde das plantas e não no sangue vermelho dos animais“.

Anúncios