Apesar de ser um cinéfilo de carteirinha, confesso que estava em “pecado” por nunca ter assistido ao filme “O Pagador de Promessas”, escrito e dirigido por Anselmo Duarte, baseado na obra homônima de Dias Gomes. Foi encenado pela primeira vez em São Paulo, em 1960. Menos de dois anos depois, o filme baseado na peça já ganhava Palma de Ouro em Cannes.

Zé-do-Burro, um sertanejo, carrega nas costas uma imensa cruz por mais de sete léguas (aproximadamente 42 km), até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, para pagar uma promessa.

Tudo o que ele quer é depositar a cruz dentro da igreja e pagar assim sua promessa, mas as coisas não serão tão fáceis. Ele se depara com a intransigência do pároco local, com os interesses políticos-religiosos da Igreja Católica, assim com a interferência do próprio Estado repressor.

O filme é bonito, interessante, emocionante. Mostra, com maestria, o poder da Igreja Católica em mobilizar o aparato repressor do Estado para defender seus interesses, assim como o nível de desrespeito e intolerância contra outras confissões de fé.

Destaque não somente para o trecho que disponibilizamos, mas também para a cena em que o padre impede a entrada de várias adeptas do Candomblé à missa em honra à Santa Bárbara, apartando-as dos devotos católicos e fechando as portas da Igreja.

No que pese a estrutura maniqueísta do filme, onde temos um herói absolutamente sem máculas, puro, honrado, casto, etc, que é sobrepujado pelos poderes constitúidos e ridicularizado é uma sociedade corrupta, gananciosa, mentirosa, uma verdadeira obra-prima, que deve ser assistida não somente pelos amantes do cinema, mas por todos aqueles que lutam contra o preconceito religioso.


Em verdade, o que vemos no filme é um pálido reflexo do nível de desrespeito à fé alheia que vivemos hoje em dia, com Terreiros de Umbanda e Candomblé sendo invadidos e destruídos por fanáticos religiosos, em especial por evangélicos neo-pentecostais.

O trecho que selecionamos é o “miolo” de toda a história, demonstrando não somente a humildade e intenções do personagem “Zé do Burro”, mas também a visão anacrônica do sacerdote católico que chama o Candomblé de “feitiçaria” e “coisa do diabo”.

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