A palavra vem do latim humilìtas que significa “pouca elevação, pequena estatura; fig. condição baixa, abatimento; sentimentos humildes, modéstia“. Refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. A Humildade, portanto, é a virtude que dá o sentimento exato da nossa fraqueza, modéstia, respeito, pobreza, reverência e submissão.

Na Umbanda, assim como na maioria das religiões, em especial as de cunho espiritualista, é muito comum ouvirmos sobre a necessidade de sermos humildes. Algumas pessoas colocam tal virtude como condição sine quo non para nos dizermos “umbandistas”, “espíritas”, etc. Mas será que existe, realmente, humildade em nosso meio?

A resposta, como tudo que se refere à Umbanda, assim como à humanidade de forma em geral, não é das mais simples.

Numerosos são aqueles que, ocultos sob aparências humildes, escondem sem seu seio o mais desmesurado orgulho. Nós os encontramos todos os dias e todos os dias eles nos falam com ênfase da humildade.

Sem terem real consciência disso, eles lutam contra a própria natureza para que suas palavras e ações escondam o melhor possível sua sede de honrarias, seu desejo de poder e sua convicção de que são seres superiores aos demais. Mas assim que sua vontade de manter as aparências se enfraquece, assim que sua verdadeira personalidade se desvela diante de situações imprevistas, a máscara cai e todo o orgulho que ela escondia aparece em cada palavra e reação.

O exercício da humildade dentro de nossos Terreiros esbarra em um desejo natural do ser humano em ser líder e não liderado, estar diante dos holofotes, ter o seu ego massageado, suas idéias reconhecidas, seu nome propagado, sua personalidade ovacionada, mesmo que seja através de seus próprios canais, como no caso daqueles que são elogiados pelos próprios discípulos que fingem fazer parte de orgãos distintos, sem perder nunca a oportunidade de mencionarem seu nome, suas realizações, sua forma “humilde” de se postar, ao ponto de até mesmo se negar a receber honrarias que seus próprios “filhos”, por detrás de instituições que ele mesmo criou e controla, desejavam fazer-lhe.

Enfim, por mais que pareça óbvio, o exercício da humildade esbarra na própria falta dela, mesmo que tentamos, a todo custo, “vender” esta imagem à comunidade.

Alguns médiuns se dizem humildes, agem como se fossem, mas é fácil identificar sua verdadeira natureza através de alguns sinais, digamos, sintomáticos, que listo abaixo:

1) Encarnações passadas

Já perceberam que absolutamente ninguém que diz conhecer suas encarnações passadas afirma ter sido o faxineiro da pirâmide, ao contrário, sempre foram o Faraó, a Princesa, o Sumo Sacerdote ou algum outro personagem importante?

Os “humildes”, via de regra, sempre informam ter passado por encarnações onde tinham honrarias e reconhecimento mundano, como se no passado (e até mesmo no presente) ser um Chefe de Estado, um Sacerdote ou membro da nobreza ou do clero, seja de qual Nação for, fosse sinal de virtude.

Alguns vão mais além, dizendo que foram (são) uma espécie de avatar condutor da raça humana e que estão na presente encarnação concluindo sua missão através de um retorno à carne de forma sacrificial, ou seja, libertos da “Roda de Samsara” utilizaram do seu livre-arbítrio e reencarnaram, não compulsoriamente, por amor à humanidade.

2) Entidades

Já perceberam a quantidade de “caciques”, “morubixabas”, “chefes”, assim como Entidades no grau de Orixá Menor que têm aparecido por ai?

Existem médiuns “humildes” que sempre fazem questão de informar que todas as Entidades com as quais trabalham (às quais normalmente se referem como “minhas Entidades”…) estão, no mínimo, em grau de Guia. Os Exus, então… ah!, os compadres… todos os que trabalham com este tipo de médium são Chefes de Legiões ou, na pior das hipóteses, de Falanges.

Realmente é difícil encontrar médiuns que trabalhem com Obreiros, Protetores ou Exus em graus hierárquicos mais baixos. Afinal de contas, grandes (e “humildes”, não se esqueçam) médiuns não podem trabalhar com Entidades em condições evolutivas mais… humildes (isto que é contradição…).

3) Conhecimento

Em geral os médiuns “humildes” não assumem suas deficiências em relação ao seu conhecimento doutrinário. Quando questionados por algum “filho” sobre algo pertinente à doutrina, escudam-se atrás do “eró” (segredo) com que deve ser tratada a matéria, mesmo que esta já tenha sido exaustivamente exposta em meios profanos, como livros e sites.

Outro artifício comumente usado por eles, diante do desconhecimento da doutrina que dizem professar, é substituir o estudo das obras, no caso de Umbanda Esotérica, de Pai da Matta e Rivas Neto (em seus áureos tempos…) pelo pentateuco kardecista, romances espíritas (principalmente Zíbia Gasparetto) e a famigerada apometria.

Podemos deduzir, portanto, que a falta em nosso meio de médiuns humildes, em especial na “alta cúpula”, é uma realidade. Obviamente não estou generalizando, mas que muitos discursos que fazem por ai são diferentes na prática, não é novidade.

Diante desta guerra de egos com a qual nos deparamos todos os dias, quero crer que longe de seguirem a orientações do Caboclo das Sete Encruzilhadas sobre o tema, muitos médiuns estão mais enquadrados no seguinte pensamento de Arthur Schopenhauer:

O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual, num mundo transbordante de inveja, um homem procura obter que lhe sejam perdoadas as qualidades e os méritos que os outros não têm“.

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