Neste meu último texto sobre “diversidade”, “convivência pacífica” e afins dentro do atual Movimento Umbandista, peço a atenção do leitor para o enunciado abaixo:

A paz perpétua, trata que o direito cosmopolitico deve circunscrever-se às condições de uma hospitalidade universal.”

Dessa forma, o filósofo Immanuel Kant traz à tona o fato de que existe um direito cosmopolitano relacionado com os diferentes modos do conflito dos indivíduos intervirem nas relações com outros indivíduos.

A pessoa que está em seu território, pode repelir o visitante se este interfere em seu domínio. No entanto, caso o visitante mantenha-se pacifico, não seria possível hostilizá-lo.

Também, não se trata de um direito que obrigatoriamente o visitante poderia exigir daquele que o tem assim, mas sim, de um direito que persiste em todos os homens, o do direito de apresentar-se na sociedade.

O direito de cada um na superfície terrestre pode ser limitada no sentido da superfície. Já o indivíduo deve tolerar a presença do outro, sem interferir nele, visto que tal direito persiste a toda espécie humana.

Então, o direito da posse comunitária da superfície terrestre pertence a todos aqueles que gozam da condição humana, existindo uma tolerância de todos afim de que se alcance uma convivência plena.

Veja que o ato de hostilidade está presente no ato do direito de hospitalidade. Mesmo que o espaço seja limitado, os indivíduos devem se comportar pacificamente com o intuito de se alcançar a paz de convívio mútuo. O relacionamento entre as pessoas está na construção dos direitos de cada um, sendo indispensável para a compreensão do direito cosmopolitico de modo a garantir as condições necessárias para termos uma hospitalidade universal.

Na proposta de Kant, temos uma convivência pacífica e respeitosa com os nossos semelhantes, compartilhamos espaços, porém sem perdermos a nossa individualidade, nossos direitos de concordar ou discordar de idéias e posições, sendo aceitável, inclusive, repelirmos aquele que interferir em nosso modo de vida.

Conviver pacificamente depende de um esforço coletivo, organizado e contínuo, cujas premissas devem ser acordadas e respeitadas pela sociedade. A idéia não é nova, pois em 1795 Kant afirmava que é nossa obrigação buscar a paz, mas que esse dever “não pode ser instituído ou assegurado sem um contrato dos povos entre si”.

A idéia de Kant, portanto, resume-se nisto:

O indivíduo deve tolerar a presença do outro, sem interferir nele.”

É extremamente aceitável tal conceito.

Aliás, de tão óbvio, civilizado, universal, nem havia a necessidade de escrevê-lo.

A não interferência em cada indivíduo compreende, inclusive, o direito dele viver de acordo com os seus próprios valores, opiniar, criticar, discordar, acentir, sem ser taxado por isto de “intolerante”.

Trazendo esta realidade para dentro da Umbanda, a necessidade de dividirmos o mesmo espaço, nos unirmos em torno de um objetivo comum, não passa, necessariamente, por uma condescendência em relação à práticas, conceitos, preceitos, doutrinas, etc. A prova disto está em nossa vida profana, visto que dentro de nossos núcleos familiar, profissional, social, convivemos diuturnamente com indivíduos com idéias muitas vezes contrárias à nossas e nem por isto deixamos de ter uma co-existência harmoniosa.

Não se trata de termos uma “Umbanda” melhor ou pior do que a outra, pelo contrário. Antes de tudo, trata-se exatamente de mantermos a diversidade não somente de ritos, mas de consciência, sem a imposição de que todos achem “normal” práticas que ferem a nossa percepção e, principalmente, a liberdade que cada um deve ter de expor isto.

O que percebo no atual momento do movimento umbandista é que existe uma imposição, um cerceamento ao livre pensamento, ao se impor à todos que tudo é válido, mesmo diante de aberrantes contradições entre teoria e prática. O preço da convivência pacífica, portanto é não questionarmos nada.

Antigamente, lembro-me que o jargão preferido no meio era: “esta é a minha verdade“.

Esta “verdade”, portanto, era inquestionável, inexplicável, irrefutável, mesmo que a pessoa que se apoiasse nesta frase não soubesse explicar os motivos fatídicos que a levaram a crer em determinado conceito como verdadeiro. As tentativas de se aprofundar no assunto eram tomadas como intolerância, imposição de valores e conceitos, enfim, como pecado mortal.

A mesma coisa volta a acontecer hoje.

O que se pretende com a implantação desta “nova ordem” dentro da Umbanda, travestida de busca pela união, convergência, convivência pacífica, é simplesmente acabar com o livre pensamento, as convicções pessoais, e aceitarmos tudo de todos, sem podermos criticar, questionar, procurar saber motivos.

É claro que esta pregação de “não-crítica” serve aos propósitos de pessoas que até bem pouco tempo atrás tinham prática adversas as que hoje levam à cabo, além de que não suportam ver suas “iluminadas” idéias questionadas por acreditar ser um avatar.

De minha parte, continuo convivendo pacifícamente, como há anos faço, com meus amigos do Candomblé, do Omolokô e de vários outros setores filo-religiosos. Aceitamos nossas diferenças, não deixamos de questionar sobre as mesmas, nada impomos uns aos outros e seguimos a nossa missão.

Apoio concretamente a união entre os umbandistas, mesmo que ela venha de um arremedo da teoria da “paz perpétua” de Kant, como é o caso do que vem se propondo por ai como “revelação do astral”. Mas não coaduno com a condição de que o livre pensar seja sacrificado para chegarmos à este fim.

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