“Remember, remember, the 5th of NovemberThe gunpowder, treason and plot;I know of no reason, why the gunpowder treasonShould ever be forgot.”[1]

O que, afinal, move o ser humano?

Até que ponto, um ser desprovido de sua liberdade individual, pode ser controlado?

Esta perguntas, feitas à milênios, deveriam estar, junto com “quem sou eu?”, “de onde vim?” e “para onde vou?”, para o rol das perguntas existencialistas.

Acredito que a maioria deve conhecer o filme “V de Vingança“, adaptado pelos irmãos Wachowski (os criadores de Matrix) para o cinema, baseado na minissérie em quadrinhos V for Vendetta, de Allan Moore e David Loyd, publicada em meados dos anos 80.

Como pano de fundo, traz a “Conspiração da Pólvora”, fato histórico que mostra a tentativa frustrada de um grupo de pessoas, descontentes com o governo, de explodirem o prédio do Parlamento inglês, símbolo máximo da corrupção do governo da época, para matar o rei James I e algumas pessoas que faziam parte da cúpula do poder (essa idéia de que “destruir um prédio pode mudar o mundo” não lembra, ao leitor, sempre atento, algum fato recente?).

A Conspiração da Pólvora ocorreu em 05 de novembro de 1605 e até hoje é lembrada pelo povo inglês, que sai às ruas, nessa data, para “malhar” bonecos com a figura de Guy Fawkes (para os cinéfilos, “Fawkes” é o nome da ave Fênix do Professor Dumbledore da série “Harry Potter“), o homem encarregado de colocar os barris de pólvora no subterrâneo do prédio do Parlamento, uma das poucas pessoas que tinha acesso irrestrito ao edifício, além de saber manejar explosivos. A cena que abre o filme fala justamente sobre as idéias de Guy, nos fazendo pensar sobre os motivos que o levaram a “conspirar” contra o Rei, bem como os motivos que levam V a propor, ao país, um basta ao autoritarismo imposto, obrigando a população a questionar os alicerces sociais e a política vigente. Nesse sentido, Moore coloca em V as bases do Anarquismo em contraponto a um Estado totalitário que vigia, censura e silencia.

Em uma das cenas iniciais, num diálogo bastante profundo entre a personagem principal V (Hugo Weaving) e sua cúmplice, Evey Hammond (Natalie Portmann), percebemos que o pensamento do herói vai ao encontro da necessidade, urgente, de mudanças no país: “Não há certezas, só oportunidades“.

De toda forma, o leitor deve estar se perguntando o que tudo isto tem a ver com a Umbanda.

Eu respondo: absolutamente tudo.

A Umbanda, no ano do seu centenário, vive uma situação de opressão, luta pelo poder, corrupção e enganação. Existem duas correntes antagônicas muito bem delineadas no panorama umbandístico, onde até mesmo os umbandistas com tendências e raizes africanistas tendem a tomar partido.

Nenhum dos “líderes” que fazem tanta propaganda e se estapeiam em listas de discussões e comunidades em sites de relacionamento, estão, efetivamente, preocupado com a Umbanda e sim dos dividendos oriundos dela.

Um vive de vender seus livros, workshops e cursos livre de teologia. Não se tem notícias que o cidadão trabalhe mediunicamente em nenhum Terreiro.

O outro, na contramão do primeiro, retirou todas as suas obras literárias do mercado, visto que elas depõem contra a sua atual postura de “universalista”, introduziu tambores, roupas vistosas, cocares e tudo mais que antes era coisa do “astral inferior” em seus ritos, fundou uma Faculdade e, apesar de, em tese, a mesma não ter fins lucrativos, lucra com o seu prestígio, nome e a maciça propaganda que seus discípulos fazem na internet, através de “ritos”, “vivências” e sabe-se lá mais o quê.

O mais incompreensível é que ninguém da Comunidade Umbandista, assim como a população do filme “V de Vingança”, simplesmente não reage, não questiona, não contraria. Ficam todos, ou pelo menos a grande maioria, como “boizinhos de presépio”, concordando com tudo, seguindo os “líderes”, por mais contraditórios que sejam, por mais que suas idéias, em especial em relação à “convivência pacífica”, nunca sejam colocadas em prática por eles mesmos.

Como no filme, temos a figura de um ditador e por detrás dele o “porta-voz”. Aliás, minto, existem dois ditarores e infinitos “porta-vozes”.

Na ficção temos o Chanceler Sandler e seu porta-voz, Lewis Prothero, este último alcunhado de “A Voz de Londres”. Seu chavão é “A Inglaterra Triunfa“. A pretensão é tanta, que em uma cena ele afirma: “A Inglaterra triunfa, porque eu digo que ela triunfa“.

Na Umbanda, temos Rivas Neto e Rubens Saraceni disputando o papel de “Chanceler” e seus asseclas de “Prothero”. Por pouco não consigo ouvir estes dois gritando: “A Umbanda triunfa porque eu digo que ela triunfa“.

Quero crer, que está na hora de fazermos como Guy Fawkes: colocar alguns barris de pólvora por ai e explodirmos com esta constante dominação dentro da Umbanda.

Apesar de estar óbvio que o “colocar alguns barris de pólvora” e “explodir” é uma força de expressão, quero deixar claro que não proponho nenhum ataque terrorista contra quem quer que seja.

A minha intenção é que a Umbanda volte ao seu estado primitivo, quando era de todos, sem lideranças opressoras, sem guerras entre seus adeptos, sem a covardia de sites, e-mails e ameaças de “força de pemba”, difamações e calúnias, típicas destes grupos dominantes.

Vamos deixar de lado, Povo de Umbanda, de nos vendermos por títulos, diplomas, honrarias, cargos, publicação de livros ou a menção de seu nome pelos “donos da banda”, atrás de prestígio e reconhecimento de estar ao lado de “A” ou “B”. As coisas estão deste jeito hoje, não pelo ego deles, mas sim pelo ego daqueles que querem holofotes, mídia e, porque não, faturar nas costas da Comunidade, conseguir um “trôco” a partir deste circo que armaram e vêm enchendo de gente.

Não há certezas, só oportunidades…

Portanto, vamos todos aproveitar a oportunidade de fazermos com que a UMBANDA TRIUNFE, mas não dando chances para nenhum destes aproveitadores afirmar que Ela triunfa porque eles assim dizem.

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[1] Trecho de uma rima tradicional na Inglaterra em alusão a “Conspiração da Pólvora”. Na tradução utilizada no filme:

“Lembrai, lembrai do cinco de novembro
A pólvora, a traição, o ardil
Não sei de uma razão para esquecer
uma traição de pólvora tão vil”

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