Desde que o homem começou a adorar alguma divindade, o sacrifício ritual é utilizado como uma forma de aplacar a ira dos deuses ou mesmo agradecê-los por alguma graça recebida. Em todas as épocas e culturas, temos notícias e sinais de sacrifícios rituais, incluso onde as “oferendas” eram seres humanos.

Maias, Astecas, Incas, Romanos, Hebreus, os Povos Negros e até mesmo tribos indígenas das américas do sul e do norte, praticavam a imolação ritualística. Nos dias atuais, algumas religiões ainda praticam o sacrificio de animais, como o Islamismo e os Cultos aos Orixás.

Dentro das práticas muçulmanas, sacrificam-se animais de várias espécies e tamanhos, como ovelhas, carneiros e camelos.

A origem de tal prática no Islamismo remonta à história bíblica de Ibrahim (Abraão) e Ismael. Ibrahim não podia ter filhos e Deus (Allah) prometeu-lhe um filho, que ele depois gerou. Mais tarde Deus colocou Ibrahim à prova dando-lhe a ordem de sacrificar o seu filho. Pouco antes de Ibrahim efetivar as ordens apareceu o anjo Gabriel que lhe disse para sacrificar um carneiro em vêz do seu filho. Em gratidão a Allah por ter poupado um ser humano, os muçulmanos oferecem todos os anos um ou mais carneiros. A terça parte da carne é doada aos pobres.

Todo este ritual é feito durante o Hajj (peregrinação oficial a Meca). O sacrifício de animais no Islã, no entanto, não é um mandamento (farz), mas um hábito (sünnet).

Nos Cultos de Nação, o Ejé Orixá (Ritual da Matança) é feito com várias finalidades e utilizando os mais diversos animais de duas ou quatro patas (galinhas, porcos, cabras, bodes, carneiros e até mesmo cachorros e caramujos).

Cada Orixá tem sua predileção por determinado animal, sendo que o “Ejé” (sangue) é derramado na cabeça do noviço (Yaô), afim de assentar a força (Axé) do Orixá. Os sacrifícios também são feitos como uma forma de obrigação ao Orixá, incluso Exu, oferendas para trabalhos diversos (prosperidade, saúde, quebra de demandas, etc…), enfim, para um número enorme de propósitos.
Assim como os muçulmanos, os adeptos dos Cultos de Nação distribuem uma parte desta carne para as pessoas da comunidade, com exceção dos sacrifícios destinados à trabalhos de magia.

A título de exemplo da importância do sangue nos rituais de Nação, transcrevo uma oração (Oriki) de Ogum:

Ògún laka aye
Osinmole
Olomi nile fi eje we
Olaso ni le
Fi imo bora
La ka aye
Moju re
Ma je ki nri ija re
Iba Ògún
Iba re Olomi ni le fi eje we
Feje we. Eje ta sile. Ki ilero
Ase

Traduzindo:

Ogun poderoso do mundo
O próximo a Deus
Aquele que tem água em casa, mas prefere banho com sangue
Aquele que tem roupa em casa
Mas prefere se cobrir de mariô
Poderoso do mundo
Eu o saúdo
Que eu não depare com sua ira
Eu saúdo Ogun
Eu o saúdo, aquele que tem água em casa, mas prefere banho de sangue
Que o sangue caia no chão para que haja paz e tranquilidade
Axé

Alguns estudos antropológicos apontam que o atual sacrifício de animais é uma “evolução” dos holocaustos humanos outrora oferecidos às divindades. O homem ao atentar-se sobre a sacralidade da vida, passa então a valorizá-la banindo os sacrifícios humanos e os substituindo pelos animais.

Existem três argumentos recorrentes entre os defensores da matança, que analisaremos:

1) Os animais não sofrem, ficam como que “anestesiados” sobrenaturalmente;

2) O ser humano sacrifica animais para comer, portanto seria hipocrisia condenar a matança de animais para fins rituais;

3) O sangue do animal é derramado para que o do homem seja poupado.

Quanto ao primeiro argumento, pode ser que os animais sejam realmente “anestesiados” e que não sintam dor em algumas Casas de Candomblé. Já tive oportunidades de acompanhar a matança e, sinceramente, nos lugares onde a presenciei, não vi nenhuma submissão do animal ou mesmo um estado de torpor antes da imolação, pelo contrário.

Em relação ao segundo argumento, acredito que o ser humano, enquanto ser corpóreo, necessita de elementos materias para sobreviver, incluso a proteina de origem animal. A imolação de animais para consumo humano, portanto, está justificada, no que pese a alimentação lacto-vegetariana ser mais benéfica ao organismo.

A pergunta é: Orixás, seres incorpóreos, elevadíssimos, necessitam realmente de algo material, assim como as humanas criaturas, para “sobreviverem”?

Particularmente, acredito eu que não.
Vamos supor que todos os adeptos da matança deixassem de oferecer sacrifícios aos Orixás, que nenhum gota de sangue, seja de que animal for, fosse derramada para fins ritualísticos, de “axé”. O que aconteceria? Deixariam de ser “Orixás”? “Morreriam”? Abandonariam ou castigariam seus filhos?

Creio que não.

O grande Aluwô Agenor Miranda, uma dos mais respeitados e sérios Baba’lawô (Pai do Segredo) do Brasil, já dizia que a força do candomblé está no sangue verde das plantas e não no sangue vermelho dos animais.

Até onde sei, Agenor Miranda não praticava sacrifícios animais, não “alimentava” seus assentamentos com sangue vermelho (sim, existem outros “tipos” de sangue) e continuava com todo o seu “axé”, inclusive sendo respeitado e reverenciado por outros Babalorixás e Yalorixás, jogando os búzios para determinar a sucessão em importantes Casas de Candomblé.

O último argumento, muito utilizado em especial no que diz respeito a Exu, também não merece prosperar.

Não consigo conceber onde a morte, a destruição, o holocausto de uma vida pode beneficiar outra. Será que realmente onde há morte pode haver algo de benéfico?

Talvez seja a hora de, como no passado repensaram a questão dos sacrifícios humanos, reconsiderarmos a imolação de animais.
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